sexta-feira, 3 de junho de 2011

A ELIMINAÇÃO DAS ARTES AUXILIARES


3.9 A eliminação das artes auxiliares
A partir, deste ponto Platão começa o desfecho apontado que as artes auxiliares devem ser eliminadas, assim como, é feito a purificação do ouro. Separando, portanto, da Ciência Política, tudo aquilo que difere dela, que lhe é estranho e hostil. E conservando apenas as ciências preciosas: a ciência militar, a ciência jurídica e toda essa retórica aliada da ciência real, que, de comum acordo com ela, emprestando à justiça sua força persuasiva, governa toda a atividade no interior das cidades. Qual será, pois, o meio mais fácil de separá-las, revelando em estado puro e despido de toda a combinação o objeto que procuramos? ( 304 a).
Assim, recorre à música para explicar tal argumento, diz que a música, tão logo, como todas as outras artes que necessitam de exercícios manuais, requer, nesse sentido de uma aprendizagem. Conseqüentemente é uma ciência que decidirá da necessidade ou não de aprendermos esta ou aquela outra ciência. Isto por ser diferente das primeiras. Logo, a tal ciência que decide se é necessário ou não aprender e aquela que ensina, com um grande poder de persuasão em relação às massas e multidões, é denominada de retórica.
A política nesse sentido é a ciência de dirigir a todos, tendo cuidado das leis e dos assuntos referentes à polis e que une todas as coisas num tecido perfeito. Assim a política, verdadeiramente conforme à natureza, jamais consentiria em constituir uma cidade formada de bons e maus. Ao contrário começaria evidentemente por submetê-los à prova do jogo, e, terminada essa prova, confiá-los ia a educadores competentes e habilitados para esse serviço. Reservando, entretanto, a si o governo e a direção, a exemplo de como faz o tecedor com relação aos cardadores e a todos os demais auxiliares que preparam os materiais que ele usará mantendo-se constantemente junto deles para governar e dirigir todos os seus movimentos. Determinando com isto, a cada um, suas obrigações que julga necessárias ao seu próprio trabalho e tecedura. Encerrando o debate com a seguinte fala:
ESTRANGEIRO
— Eis, pois, terminado em perfeito tecido o estofo que a ação política urdiu quando, tomando os caracteres humanos de energia e moderação, a arte real congrega e une suas duas vidas pela concórdia e amizade, realizando, assim, o mais magnífico e excelente de todos os tecidos. Abrange, em cada cidade, todo o povo, escravos ou homens livres, estreita-os todos na sua trama e governa e dirige, assegurando à cidade, sem falta ou desfalecimento, toda a felicidade de que pode desfrutar. SÓCRATES, O JOVEM
— Excelente retrato, estrangeiro, que terminas, agora, do homem real e do homem político.
(O Político, 311 c)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante de todas as coisas discutidas chega-se à conclusão que deve se atribuir aos magistrados o zelo das leis e das instituições da cidade, uma vez que, estes conhecem a essência de cada coisa. Sendo, portanto, capazes de aliar a experiência à especulação. Assim, é a eles e não a outros que se deve confiar o governo da cidade. Os magistrados por amarem sempre a ciência, por dar-lhes a conhecer a essência eterna, não estando sujeito às vicissitudes da geração e da corrupção daí concede-se a eles o caráter filosófico. Amam a verdade, uma vez que, quem ama a ciência, deseja acima de tudo aprender toda a verdade, diz Sócrates: Logo, quem ama de fato a ciência deve, desde a juventude, desejar tão vivamente quanto possível apreender toda a verdade (A República, Livro VII. p. 193)
Aquele mais apto a governar a cidade é o que tem mais facilidade de apreender a reter o conhecimento, neste caso, o filósofo. Alguém que tem uma alma esquecida jamais terá tendência à filosofia. O verdadeiro filósofo é um espírito repleto de moderação, mnemosine e graça, cujas, tendências inatas guiarão facilmente para a essência de cada ser. Conseqüentemente será amigo da verdade. É a estas almas amadurecidas pela educação e pela idade que se deve, portanto, confiar o governo da cidade. No entanto, Adimanto e Sócrates reconhecem que os tais Reis-Filósofos são inúteis. Mas, retomam tal questão, a partir da imagem do comandante de um navio e a sua importância para a segurança da navegação, assim é também o Rei-Filósofo.
Partem, então, em busca das outras vicissitudes que compõem o temperamento filosófico, tais como, a coragem a grandeza de alma, a facilidade de aprender e a memória. Diz Sócrates:
- É preciso agora enumerar as outras virtudes que compõem o temperamento filosófico? Como te recordas, vimos desfilar a coragem, a grandeza de alma a facilidade em aprender e a memória. (...).
(A República, p. 199)
Para enfatizar ainda mais tal Questão, Sócrates passa a tecer considerações sobre o falso filósofo, a partir das degradações do temperamento. Tais como:
(...), como se pode no maior número, como só escapa à corrupção em alguns, aqueles a quem denominamos não perversos, mas inúteis; consideraremos em seguida aquele que afeta imitá-lo e atribui a si mesmo uma função: quais são os temperamentos que, usurpando uma profissão de que são indignos e os ultrapassa, chegam a mil desvios e associam à filosofia essa deplorável reputação que assinalas.
(A República, p. 199)
Assim no Livro VII de A República Platão, pela boca de Sócrates argumenta sobre a educação pela alegoria do Mito da Caverna, esta constitui o foco principal na formação dos futuros guardiães. Mas como escolher, dentre eles, o mais apto para governar a cidade? Platão entende ser necessário submeter os educandos a duras provas de habilitação, as quais incluem avaliação da faculdade mnemônica, da resistência à dor e à sedução e da capacidade demonstrada na execução de trabalhos árduos. Os aprovados nesses exames devem prosseguir no processo educativo, estudando matemática e, posteriormente dialética. Aos reprovados cabe trabalhar para a comunidade, prestando os mais diversos serviços: comércio, manufatura de bens de consumo, etc.
Conseqüentemente Platão aponta que na formação dos guardiões e, em particular, do governante, exige, posteriormente, dedicação e esforços ainda maiores por parte dos educandos. Assim como, nossos olhos não conseguem contemplar o sol, fonte de toda luz no mundo visível, o Bem, ideia suprema que governa o mundo supra-sensível, não pode ser contemplado se os olhos da alma não forem cuidadosamente preparados para esse fim. A situação, ilustrada pela bem conhecida alegoria da caverna, prevê que o homem possa se libertar dos conhecimentos falsos, enganosos, gerados pela opinião (doxa), que, são apenas sombras ou simulacros dos conhecimentos verdadeiros. Tal ruptura, porém, não é imediata, pois, aquele que foi acostumado a viver nas sombras, quando olha pela primeira vez o sol, tem sua vista ofuscada e se recusa a continuar a observá-lo. O mesmo se dá com respeito às verdades e à ideia do soberano Bem. Por essa razão, os estudos a serem feitos posteriormente (matemáticas e dialéticas) devem prosseguir por muitos anos a fim de revelar quem possui alma de filósofo.
Segundo assinala Werner Jaeger (1995, p. 841-842), para Platão o verdadeiro espírito filosófico é aquele que não se deixa perturbar pela variedade das opiniões, tendo como meta alcançar a unidade na diversidade, isto é, “Ver a imagem fundamental, universal e imutável das coisas: a ideia”.
Portanto, O Político é a educação que revela, para o conjunto dos cidadãos, o melhor governante é uma ascese espiritual: a alma que atinge o topo do conhecimento se acha em plenas condições de governar, mas não deve se julgar superior aos demais homens e mulheres. Ao contrário, deve retornar ao mundo de sombras em que eles vivem e, graças ao seu olhar mais acurado, ajudá-los a ver com maior nitidez no escuro. O rei-filósofo não tem, portanto, como ideal de felicidade chegar ao poder para ser honrado por sua sabedoria ou para adquirir prestígio e riqueza; ele não cultiva qualquer tipo de orgulho e é feliz por ser o educador maior de todos. Aquele que governa para fazer de seus concidadãos homens e mulheres melhores.
Podemos concluir então como abordado ao longo de todo o diálogo, O Político, que os homens desde que foram abandonados à própria sorte pelos deuses. Necessitam obrigatoriamente de um líder que os represente na resolução de todos os problemas, na busca de uma cidade mais justa possível. Não podemos descartar também que este é o mais indicado para ser o magistrado, por estar mais próximo da ciência: arte política, podendo ser nomeado então como Rei-Filósofo.

REFERENCIAL TEÓRICO


REFERENCIAL TEÓRICO

CHÂTELET, F. História da Filosofia 5 (Idéias e doutrinas) Segunda Edição, Zahar Editores – Rio de Janeiro,1981

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 1º edição brasileira, coordenada e revista por ALFREDO BOSI. Ed. Martins Fontes – São Paulo, 2000.

PLATÃO, A República, volume 1, Ed. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1965.

________, A República, volume 2, Ed. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1965.

­­­­­­­­________, Diálogos: O Banquete — Fédon - Sofista — Político, Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1991.
CHÂTELET, François. História da Filosofia. Idéias, Doutrinas; A Filosofia Pagã. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

JAEGER, Werner. Paidéia, a formação do homem grego. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga, vol. II. São Paulo: Loyola, 1994.