sexta-feira, 3 de junho de 2011

A FIGURA DO PASTOR HUMANO: TIRANO OU REI?


3.3 O figura do pastor humano: tirano ou rei?
Segundo o autor, Nenhuma arte pretenderia, com maior pressa e maior razão do que a arte real, ter a si os cuidados para com a comunidade humana, em seu todo, e constituir-se numa arte de governo dos homens, em geral. (276 c). O que deve ser demonstrado é a distinção ao que é imposto pela força e o que é aceito de boa vontade. Feito esta diferença, não terá como se confundir o rei e o tirano que são bem distintos entre si, pelas suas maneiras de governar.
Logo, se deve dividir a arte do cuidado para com os homens em duas: aquela que é imposta pela força e aquela que é aceita pela boa vontade. Assim, quando ela é imposta pela força, Platão chama de tirania e quando seus préstimos são livremente oferecidos e livremente aceitos pelos rebanhos de bípedes deverá ser chamada então de política. Portanto, quem exercer esta arte e tiver em si estes cuidados, será: verdadeiramente um Rei e um Político? (276 e) Pergunta o estrangeiro.

A DEFINIÇÃO E O USO DO PARADÍGMA E O PARADÍGMA DA TECEDURA


3.4 A definição e o uso do Paradigma e o paradigma da tecedura
Para explicar este problema recorre à educação da criança que, para melhorar sua aprendizagem, orienta-se para que a mesma faça comparações entre as coisas que já conhece e as que estão querendo aprender. Pergunta o estrangeiro: — Por que meios poderá, meu caro, quem parte de uma opinião falsa alcançar alguma porção da verdade e chegar à sabedoria? (278 e).
Tudo que se faz ou se adquire nos serve ou como meio para alguma ação ou para prevenir-nos de algum sofrimento. Conseqüentemente:
Do que nos previne, há os antídotos divinos ou humanos, e há os meios de defesas. Dentre estas defesas, umas são armaduras de guerra, outras abrigos. Dos abrigos, uns são providências contra o frio e o calor, e dentre estes há os telhados e os tecidos. Os tecidos, por sua vez, ou servem como cobertas ou como vestimentas, e estas se compõem de uma ou de várias peças. As vestimentas de várias peças são costuradas ou não, e dentre as que não são costuradas umas são feitas de fibras de plantas e outras de pelos. Das que são feitas de pêlo, umas são ligadas com água e terra, e noutras os próprios pelos se entrelaçam. Ora, a estes meios de defesa, e a estes tecidos feitos de pelos que se ligam uns com os outros é que se deu o nome de vestimentas. Pois que demos o nome de política à arte que se ocupa da polis, daremos, da mesma forma a esta nova arte que se ocupa especialmente das vestimentas, atendendo ao seu objeto, o nome de arte vestimentária. Não poderemos dizer, então, que a tecedura, na medida em que ela é a parte mais importante na confecção da vestimenta, em nada se distingue da arte vestimentária, a não ser pelo nome, da mesma forma como a arte real só difere em nome da arte política?  (O Político, 280 a)
Assim feito, enfatiza que a arte de tecer as cobertas se distingue, entre aquelas que vão servir de vestimentas e aquelas que vão servir de mantas - só deixando assim a arte que nos interessa, que nos preserva do frio do inverno, fabricando-nos as defesas de lã, e que tem o nome de tecedura (280 e). Partindo do princípio que tecer significa entrelaçar.

AQUILO QUE SE PRODUZ ENQUANTO OBJETOS DE DUAS ARTES: CAUSAS PRÓPRIAS E CAUSAS AUXILIARES


3.5 Aquilo que se produz enquanto objetos de duas artes: causas próprias e causas auxiliares.
Platão, pela boca do estrangeiro, diz que uma dessas artes é causa auxiliar da produção e a outra a sua própria causa. Todas as artes que não produzem a coisa propriamente dita, mas que são indispensáveis à produção do objeto são caracterizadas apenas como causas auxiliares, por exemplo, o fornecimento de fusos, as lançadeiras e os demais instrumentos necessários à produção, e as que produzem, o estrangeiro diz que é causa própria, aquelas que executam e fabricam diretamente. Para fechar tal raciocínio diz:
ESTRANGEIRO
— Eis, pois, a parte da tecedura que nos interessava, perfeitamente compreensível daqui por diante. Quando a operação de reunião, que é a parte do trabalho da lã, entrelaçou a urdidura e a trama, de maneira a formar um tecido, damos, ao conjunto do tecido, o nome de vestimenta de lã, e, à arte que o produz, o nome de tecedura.
SÓCRATES, O JOVEM
— Muito bem.
ESTRANGEIRO
— Bem, mas então por que não dizer logo: "A tecedura é a arte de entrelaçar a urdidura e a trama" em lugar de fazer tantos rodeios e um acervo de distinções inúteis?
(O Político, 283 a, b)